Gastronomia por Roberta Sudbrack
19/05/2008 ..
Há fogo!
Aproveito esse espaço para esclarecer alguns maus entendidos que por pouco não geram um incêndio de proporções devastadoras. Não teria cabimento um pedido de desculpas, afinal, a proposta aqui é ser verdadeiro custe o que custar. Às vezes custa caro, incomoda e faz dodói, mas para preservar a essência, opto por correr mais esse risco, além de todos que já corro.
Independente dessa liberdade de expressão muito própria dos dias atuais e especialmente dos blogs, concordo que é preciso estar atento na tentativa de não cometer exageros. Para tudo há um limite e cada um tende a acreditar que sabe dimensionar o seu. É verdade que existe um ponto exato de cocção para cada carne, mas no fundo, carne é carne! Ou seja, existe uma linha tênue até onde se pode ir, seja ela qual for.
Na sexta-feira abordei um assunto que rondava a minha cabeça impulsionada, primeiro por uma matéria que havia lido recentemente numa revista européia e depois por um comentário a respeito de outra matéria que havia saído no jornal daquele dia. Até aí tudo bem, porque tenho uma opinião formada sobre esse assunto e não teria porque não expressá-la verdadeiramente. O erro foi não ter lido a matéria antes, e justamente por causa disso, não saber quem eram os personagens envolvidos. Nesse caso, pessoas que eu respeito e admiro, façam elas o que fizerem, são profissionais competentes, batalhadores e convictos nas suas causas. Se tivesse tido o cuidado de ler antes, certamente teria escrito a mesma coisa, com a diferença de que no final diria: mas se fulano ou beltrano estão usando essa técnica, certamente há alguma mensagem nessa fumaça. É importante, quando se lidera, ter a capacidade de reconhecer o exagero. Só dessa maneira treinamos as papilas gustativas para detectar, quando necessário, o sal a mais ou a menos.
Dito isso, reservo-me ao direito de não deixar jamais de expressar com sinceridade as minhas opiniões, afinal são elas o fio condutor de toda uma filosofia que defendo. A essência do que prego e acredito. Não seria, portanto, verdadeiro, independente do alcance que tem o blog, deixar de abordar certos temas apenas para não sensibilizar demais as partes envolvidas. Afinal esse é um espaço de liberdade e essa é a sua grande graça. Sem isso a coisa tende a ficar morna, sem gosto, nem fumaça!
Até!
20/05/2008 ..
Arroz com feijão e termomix...
Não sei se o mundo gastronômico, mesmo num momento de tanta evolução, será capaz de criar alguma sensação gustativa mais fantástica do que a que essa dupla produz. Uma coisa eu garanto: não será tarefa fácil para nenhuma termomix!
Fico imaginando que muita gente já deve ter desfeito o pobre do arroz com feijão em minúsculas partículas, na intenção de recriá-lo em outro corpo. Algo como a criação do Frankstein, que, aliás, acho muito simpático, naquele contexto! O fato é que a inovação cabível no caso dessa dupla fica por conta da tradição, ou seja, feijão sem arroz em outro corpo, só em copo! O bom e velho caldinho de feijão! No Brasil acredito que não exista um tão bom quanto o da Academia da Cachaça, no Leblon. Denso, cremoso e absolutamente seguro de si, ou seja, não há espuma que o abale!
Cheguei em casa um dia desses de madrugada, como de costume, tomei meu banho morno e rumei para a cozinha louca de fome. Como de costume! Sempre me faço essa pergunta nessas horas: como você pode servir tantas pessoas e chegar em casa faminta? Ossos do ofício! Vasculhei a geladeira a procura dos quatro ingredientes que costumam salvar a minha vida numa hora dessas: pão, gruyère, presunto e Toddynho! Depois de tomar posse de todos rumei para o fogão, fazendo apenas um pitstop na gaveta para apanhar o velho totex. Tostex, nome moderno não é? Lembra até temomix, mas é bem mais simples! Chegando lá me deparei com algumas panelas que repousavam candidamente sobre o fogão. Num gesto infantil de curiosidade, comecei a abrir uma por uma. Na primeira encontrei arroz, na segunda vagem refogadinha, na terceira carne moída ensopadinha com cenoura e na quarta e última, feijão! Olhei primeiro para o relógio, esse marcava duas e quarenta, numa nítida tentativa de me fazer desistir da aventura. Depois virei para meus quatro companheiros que me olhavam apavorados e apreensivos com a possibilidade de serem traídos e disse: sinto muito!
Aqueci todas as panelinhas com cuidado e comi feliz, não diria como uma criança, porque quando passamos por essa experiência nessa época da vida, ainda não temos a menor idéia do grau de sofisticação que ela realmente tem. Comi feliz como alguém que, apesar de lidar com as mais variadas formas, texturas e sabores, sabe avaliar bem a magnitude e os valores que sensações como essas carregam. Valores que estão muito além da simples experiência gustativa. São emocionais, sensoriais e, sem esforço ou pirotecnia alguma, inesquecíveis. Na hora de tampar as panelas fiquei alguns minutos com a do arroz e a do feijão abertas. Observando a forma, a consistência, a textura e a personalidade daquela dupla. Peguei uma colher e cobri ligeiramente com arroz que ainda estava quentinho e soltinho, fui até a panela do feijão e derramei com a concha, um pouco dele sobre a colher. Fechei os olhos, e agora sim, me permiti voltar no tempo, como uma criança que faz traquinagens à beira do fogão, sem o menor pudor, nem mesmo o cuidado de não sujar a roupa!
Agora, pensa bem termomix, não vai ser fácil, vai?
Até!
23/05/2008 ..
Gentileza e ovo caipira...
Pensando no que escreveria hoje, enquanto estava no restaurante, esse tema foi o que mais rondou a minha mente. O da gentileza, infelizmente influenciado pela falta dela em um acontecimento recente. E o dos ovos, pela constatação de que a minha vida está realmente mais ligada à eles do que às pirotecnias da cozinha moderna.
Lembro-me bem de alguns acontecimentos da minha infância numa cidadezinha chamada Pequiá, que fica na divisa de Minas Gerais e o Espírito Santo, onde passei quase todas as minhas férias infantis e algumas juvenis. A cidade tinha uma rua só naquela época, hoje tenho até medo de pensar, na angústia de que o progresso destrua as minhas fantasias infantis. Meu avô e minha avó nasceram lá, se conheceram e fugiram de lá para casar! Praticamente a cidade inteira se conhecia e se não era parente passava a ser. Ao cruzar uns com os outros pelas ruas, se conhecendo ou não, sendo parentes ou não, todos sempre se cumprimentavam e praticamente intimavam uns aos outros a entrarem em suas casas para tomar um cafezinho, que para minha surpresa estava fresco a qualquer hora do dia! A pergunta crucial era: vai querer café covarde ou corajoso? O covarde vinha acompanhado de doces, queijos, bolos e biscoitinhos mil. O corajoso vinha sozinho! A gente naquela idade, achando que estava abafando, enchia o peito de coragem e dizia: corajoso, claro! E ficava sem biscoito!
Essas lembranças de gentileza explícita moram na minha memória, digamos que, praticamente vivem no meu quintal. Acho que nunca é demais exercitar a gentileza seja lá onde for. Nós tentamos diariamente exercitá-la no restaurante, mesmo em situações adversas, o que sempre acontece. A questão é que a linha tênue que separa a intimidade - repleta de alegrias e trocas - da falta de respeito muitas vezes é apagada com aquela parte áspera da borracha sem a preocupação com a mancha que essa sempre deixa. Há uma distorção de valores envolvida nessa relação, principalmente quando se pensa ter o direito de ultrapassar certos limites por supor ter essa intimidade. Quando em minha opinião, o mais sensato seria sempre estabelecer outra linha tênue, a de quem serve ou, é servido.
Quando alguém se senta numa das mesas do meu restaurante, não importa o grau de intimidade que eu tenha, ou imagine ter com aquela pessoa, naquele momento eu toco na banda do serviço. Para mim não há nada de mais nisso, afinal servir é o meu ofício. Todo mundo que me conhece sabe que não troco o calorzinho da cozinha por nada e entrar pela porta dos fundos já é uma rotina que considero adorável na minha vida.
Agora, invertendo os papéis, quando saio, o que não é muito comum, acredito que mereça o mesmo respeito que dispenso quando estou servindo, seja lá o grau de intimidade que possa parecer estar envolvido. Justamente pelo fato de sair pouco, quando consigo quebrar a minha rotina, é natural que se espere um tratamento gentil, afinal ele é o abre-alas de uma boa refeição. Infelizmente não é sempre assim que acontece, principalmente quando você não está acostumada a sair muito da cozinha. É mais ou menos como se a cozinha fosse a cidadezinha do interior de Pequiá, ou seja, sair dela significa cair na selva da metrópole, onde nem todos são gentis como os “matutos”.
É por essas e outras que eu prefiro entrar pela porta dos fundos e comer ovos caipiras!
Até!
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